Introdução
A curiosidade é o que move o aprendizado, a ciência e a criação. Foi ela, dentre outras coisas, que permitiu a tecnologia se tornar o que é hoje. Em crianças ela é direta e incessante — diversas perguntas sobre tudo e exploração sem medo. Ao longo da vida esse movimento fica mais lento: não porque a biologia nos torne “menos curiosos”, mas por mudanças no ambiente, nas pressões de produtividade, no modo como passamos a arquivar respostas (e a evitar perguntas), e principalmente, nas recompensas sociais.
O problema ganhou nova dimensão com a IA: agora temos respostas instantâneas, sobre tudo que possamos imaginar, de uma forma como se estivéssemos conversando com um ser humano real. Isso até pode liberar tempo para perguntas mais profundas, depende do uso da ferramenta, porém o mais comum de se ver é o corte rápido (é Tramontina) do pensamento crítico, imaginação e capacidade de exploração. É algo totalmente diferente de buscar no Google naquele motor de busca popular por uma solução ou seja lá o que for.
Como e Por quê a Curiosidade Diminui?
Um conjunto de fatores vão minando nosso "Poder de Questionamento" ao longo do nosso crescimento como indivíduo:
- Socialização e escola padronizada: sistemas educacionais e culturais frequentemente reforçam respostas corretas e supressão de erros. Crianças vão aprendendo que errar é ruim, que perguntar demais incomoda, e gradualmente treinam a atenção para cumprimento de metas, não para "vazio" no conhecimento que gera curiosidade;
- Especialização e rotina profissional: ao nos tornar especialistas, passamos a priorizar eficiência e rotinas seguras; o custo social/temporal de “perder tempo” investigando cresce, e a curiosidade é punida indiretamente;
- Medo e aversão ao risco: adultas/os lidam mais com riscos palpáveis (família, trabalho, renda). Experimentar algo novo frequentemente exige exposição a falhas, essas, temidas pelo peso das responsabilidades;
- Terceirização do raciocínio e IA: quando usamos buscadores e chats de IA para obter respostas imediatas, tendemos a externalizar etapas do raciocínio (cognitive offloading). Isso pode reduzir o impulso inicial de formular hipóteses, testar e percorrer o caminho da descoberta se a ferramenta for usada como substituto, não como alavanca.
Importância da Fomentação da Curiosidade
- Aprendizado eficaz: curiosidade direciona a atenção para lacunas de conhecimento, facilitando retenção e memorização;
- Saúde cognitiva: manter interesses e aprender atenua declínios cognitivos e está associado a melhor envelhecimento cerebral;
- Resiliência profissional: no ecossistema tecnológico e além, perguntas inteligentes mais do que podem gerar soluções originais, elas ajudam a se adaptar, corrigir algo fora dos trilhos, tomar decisões mais certeiras — aspectos valiosos na era da IA.
Inteligência Artificial: Inimiga ou Aliada?
Para mim: Nem uma coisa, nem outra. É ferramenta, portanto, como cada um usa é de responsabilidade própria.
Assim como é possível, dando um exemplo da área de desenvolvimento de software, apenas dizer para o agente XYZ "Crie o Whatsapp 2" e ver a IA trabalhando (de forma bem porca, porque também ô prompt viu...); também é possível dizer para o agente ir construindo parte por parte enquanto pergunta "O que isso faz? Como funciona? Por que é assim? Pode ser de outra forma? E se trocar isso por aquilo?"...
Percebe a diferença?
E não se engane! Não falo isso pra quem já é experiente na determinada área, afinal, provavelmente essa pessoa já vai ter conhecimento profundo sobre vários assuntos com os quais trabalha. Digo isso para outros como eu, que estão apenas no início da jornada, se sentindo sufocados por IA.
Como Exercitar a Curiosidade?
- Identifique lacunas de conhecimento (information gaps). Em vez de “buscar a resposta”, pergunte: “o que exatamente eu não sei aqui?” e registre essa lacuna — é o gatilho para curiosidade estatável;
- Faça micro‑experimentos de 15–30 minutos: teste uma hipótese simples, registre resultado e repita. Pesquisas apontam que ver progresso curto e mensurável reforça curiosidade;
- Rotina de “tempo sem respostas”: reserve 20–30 minutos semanais sem procurar “a resposta certa” — explore problemas sem pressão por produtividade (tática recomendada por programas de treino de curiosidade);
- Cross‑training mental: consuma tópicos fora da sua área (arte, biologia, história). A interseção entre domínios é terreno fértil para perguntas novas;
- Aprenda com crianças: adote curiosidade de “por que/como” — pratique fazer 5 perguntas seguidas sobre algo cotidiano até chegar a um ponto que realmente exija investigação empírica;
- Use IA como auxílio, não como substituto: gere hipóteses e contraexemplos com a IA, depois verifique você mesmo os caminhos. Combinar geração automática com verificação ativa aumenta aprendizado;
- Cultive hobbies experimentais e práticas manuais (marcenaria, fotografia, programação de projects pequenos): o “aprender fazendo” mantém a tolerância a erros e o prazer pela descoberta — e protege contra o desuso da curiosidade;
- Diário de curiosidade: anote perguntas diárias e o que você fez para respondê‑las; acompanhar progresso reforça o comportamento.
Fechamento
A curiosidade não é apenas nostalgia da infância: é uma habilidade treinável e uma proteção contra o "emburrecimento". Na era da IA, estamos numa encruzilhada: podemos deixar que respostas fáceis apaguem o hábito de perguntar, ou podemos usar essas mesmas respostas para elevar o nível das perguntas...
Fontes
Esse texto foi, em sua base, formado por IA e auditado por mim. Entretanto, não há incongruências entre o que penso e o que está escrito (até porque bastante coisa foi modificada). Dito isso, aqui estão as fontes:
- Kidd, C. & Hayden, B. The psychology and neuroscience of curiosity (2015) — revisão (PMC): https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4635443/
- Sakaki, M. et al., “Curiosity in old age: A possible key to achieving adaptive…” (2018 / PubMed): https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/29545165/
- Whatley, M.C., “Curiosity across the adult lifespan…” (2025 / PMC): https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC12057985/
- UCLA News — “Curiosity can help brain stay sharp as they age” (May 2025): https://newsroom.ucla.edu/releases/curiosity-can-help-brain-stay-sharp-as-they-age
- Scientific American — “How the Science of Curiosity Boosts Learning” (Nov 2024): https://www.scientificamerican.com/article/how-the-science-of-curiosity-boosts-learning/
- Harvard Business School / HBSP — “How to Condition Your Curiosity Muscle” (Jan 2024): https://hbsp.harvard.edu/inspiring-minds/how-to-condition-your-curiosity-muscle
- NWO project “Curiosity in cognitive aging” (2023) — relação com reserva cognitiva: https://www.nwo.nl/en/projects/406xs03021
- Relatório PNUD (coberto pela CNN Brasil) sobre impactos da IA no desenvolvimento humano (2025) — contexto socioeconômico e tecnológico: https://cnnbrasil.com.br/tecnologia/relatorio-pnud-2025-apresenta-impactos-da-ia-no-desenvolvimento-humano/
- Revisões e debates sobre IA e pensamento humano (arXiv 2025) — impacto ambivalente de IA: https://arxiv.org/pdf/2508.16628