Artigo de divulgação técnica, com base em documentos e páginas oficiais do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), da Justiça Eleitoral e em normas públicas. Atualizado com informações verificáveis até as Eleições Gerais de 2026.
1. O que a urna é — e o que não é
A urna eletrônica é um microcomputador de uso específico para identificar o eleitor, registrar o voto e apurar o resultado da seção eleitoral. Não é um PC comum: o TSE especifica o hardware; uma empresa vencedora de licitação fabrica o equipamento; o software é desenvolvido pela equipe técnica do TSE.
Dois pontos estruturais, ambos oficiais:
- A urna não se conecta à internet. Não tem Wi-Fi, Bluetooth nem componentes de rede. Só dois cabos: energia e o terminal do mesário.
- A urna não transmite o resultado. Ela imprime o Boletim de Urna (BU) e grava arquivos numa mídia de resultado. Essa mídia é levada fisicamente a um ponto de transmissão (cartório ou polo). Só então os dados seguem por rede privativa da Justiça Eleitoral.
O modelo brasileiro é um DRE (direct-recording electronic): o voto é gravado eletronicamente, sem cédula de papel individual devolvida ao eleitor. O TSE defende que o papel no momento do voto ameaçaria o sigilo. Críticos apontam a ausência de um comprovante verificável pelo eleitor (voter-verified paper trail). Este artigo descreve o sistema como ele opera, não como deveria ser.
A primeira geração (UE96) estreou nas eleições municipais de 1996: processador Intel 386SX (40 MHz), 2 MB de memória, disquetes de 1,44 MB, cerca de 70 mil equipamentos e cerca de 30% do eleitorado. Em 2026, a Justiça Eleitoral operou 563.910 urnas (modelos UE2022, UE2020, UE2015 e UE2013).
2. Hardware: dois terminais, uma máquina isolada
A urna tem dois terminais:
| Terminal | Função |
|---|---|
| Mesário | Identifica o eleitor (título + biometria, quando cadastrada) e habilita o voto. Desde a UE2020, tela sensível ao toque. |
| Eleitor | Cabine: teclado numérico + tela. O eleitor digita números, confere nome/foto e confirma. |
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Modelos UE2020 e UE2022 (oficialmente quase idênticos): processador Intel Atom E3940 (1,16 GHz), 4 GB de RAM DDR3L. A UE2020 foi o primeiro modelo com bateria de lítio-ferro-fosfato (antes, chumbo-ácido). A especificação da geração seguinte (UE2028) prevê autonomia de pelo menos 10 horas sem rede elétrica.
Peças críticas — teclado, leitor biométrico e impressora térmica — têm chips criptográficos. Se alguém troca um periférico por peça genérica, a urna deve recusar o dispositivo. O teclado gera um criptograma diferente a cada tecla.
No núcleo da placa-mãe está o Módulo de Segurança Embarcado (MSE): raiz de confiança em hardware. Ele assina e verifica, cifra e decifra, gera chaves, autentica dispositivos e tem gerador de números aleatórios (TRNG). A partir da UE2020, o MSE é certificado segundo requisitos da ICP-Brasil. Cada urna tem identificação única inalterável. A Autoridade Certificadora da Justiça Eleitoral, em sala-cofre do TSE, emitiu mais de 4 milhões de certificados digitais para as urnas.
Acessibilidade (oficial): teclado no padrão de telefone, Braille, clique audível, identificação da tecla 5, voz sintetizada e recursos de Libras em versões recentes.
3. Software: Uenux + Vota

Desde 2008 todas as urnas usam o Uenux (Urna Eletrônica com Linux), distribuição feita pelo TSE. Antes: VirtuOS (1996–2000) e Windows CE (2002–2006). O kernel foi estendido para só executar o que estiver assinado digitalmente. Não há terminal de comandos exposto nem drivers de rede. Todos os modelos rodam a mesma versão do Uenux.
O programa de votação é o Vota: interface do eleitor e do mesário, RDV, zerésima, BU e arquivos da mídia de resultado. Os aplicativos eleitorais foram reescritos do zero na migração para Linux.
O código-fonte não é um repositório público na internet. Desde 2004 o TSE o abre a entidades fiscalizadoras (partidos, MP, OAB, Congresso, universidades, SBC etc.). Desde 2021 o prazo é de 12 meses antes da eleição ordinária. Para 2026, a inspeção começou em outubro de 2025. Depois o código é compilado, recebe hashes e assinatura digital, é gravado em mídia e lacrado em cerimônia pública.
Criptografia de Estado usada nas urnas envolve software do Cepesc (Centro de Pesquisa e Desenvolvimento para a Segurança das Comunicações, ligado à Abin), inspecionado no código-fonte e no Teste Público de Segurança.
flowchart TD
A[Código-fonte inspecionado<br/>por entidades fiscalizadoras] --> B[Compilação]
B --> C[Hashes + assinatura digital]
C --> D[Cerimônia pública de lacração]
D --> E[Geração de mídias e carga das urnas]
E --> F[Urna só executa software assinado]
F --> G{Assinatura válida?}
G -->|Sim| H[Boot e votação]
G -->|Não| I[Travamento / desligamento]
No boot, só o hardware de segurança e a BIOS são energizados. O hardware confere BIOS, bootloader e Uenux. O Uenux desafia o hardware criptográfico para provar que está numa urna oficial. Falha nessa cadeia: a máquina trava.
4. O dia da eleição, passo a passo
Horários em Brasília, no rito padrão descrito pelo TSE.
flowchart TD
A[Véspera: urnas nas seções<br/>Teste de Integridade sorteia urnas] --> B[7h: ligar a urna<br/>com mesários e fiscais]
B --> C[Checagem automática do software]
C --> D[Zerésima: todos os candidatos<br/>com zero voto]
D --> E[8h: abertura da votação]
E --> F[Identificação + biometria]
F --> G[Eleitor vota na cabine]
G --> H{Ainda é antes das 17h<br/>ou há fila?}
H -->|Sim| F
H -->|Não| I[17h: encerramento]
I --> J[Apuração na própria urna]
J --> K[Impressão do BU]
K --> L[Gravação da mídia de resultado]
L --> M[Transporte físico ao polo]
M --> N[Transmissão por rede privativa]
N --> O[Totalização TRE / TSE]
Zerésima. Por volta das 7h o presidente da mesa liga a urna. A máquina confere os programas e imprime relatório com identificação da urna, zona, seção e zero voto para cada candidato. Presidente, secretário e fiscais assinam. Sem zerésima, a seção não abre.
Votação (8h–17h). O mesário confere documento com foto, digita o título e, se houver cadastro, valida a biometria. Só então a cabine é habilitada. Celular, câmera e rádio são proibidos na cabine (Lei nº 9.504/1997, art. 91-A). O eleitor digita o número, vê nome e foto, espera a pausa de conferência e aperta CONFIRMA (verde). CORRIGE (laranja) refaz; BRANCO vota em branco; número inexistente, confirmado, é nulo.
Nas eleições gerais de 2026 a ordem (derivada da lógica do art. 146 do Código Eleitoral, Lei nº 4.737/1965) foi:
- Deputado federal — 4 dígitos
- Deputado estadual ou distrital — 5 dígitos
- Senador (1ª vaga) — 3 dígitos
- Senador (2ª vaga) — 3 dígitos
- Governador — 2 dígitos
- Presidente da República — 2 dígitos
Encerramento. Às 17h (com a fila da seção), o presidente encerra no terminal do mesário. A urna apura a seção sem intervenção humana no software de votação.
5. O que acontece quando o eleitor aperta Confirma
O voto não é uma linha “eleitor X → candidato Y”. Isso quebraria o sigilo (art. 14 da Constituição e Código Eleitoral).
O Registro Digital do Voto (RDV), adotado desde 2004, é o arquivo em que os votos são gravados. O TSE descreve uma tabela: colunas = cargos; linhas = eleitores aptos da seção. A cada Confirma, o software sorteia uma linha e grava o conteúdo digitado na coluna daquele cargo. Cargos diferentes de um mesmo eleitor vão para linhas diferentes. A ordem de comparecimento não se reconstrói.
Duas propriedades oficiais:
- O RDV guarda exatamente o que foi digitado, sem metadado que ligue voto a pessoa.
- A posição aleatória equivale, na analogia do TSE, às cédulas embaralhadas na urna de lona.
Zerésima e BU saem do RDV. Partidos podem obter cópias do RDV e, com a especificação ASN.1 publicada pelo TSE, recontar com software próprio. Os arquivos de BU, RDV e assinatura digital das Eleições 2022 estão documentados no site do TSE, com scripts Python de exemplo.
Votos também são gravados de forma redundante (memória interna e mídia externa), para contingência se a urna precisar ser substituída. Há log cronológico de operações do software.
flowchart LR
A[Eleitor confirma] --> B[Software sorteia posição<br/>no RDV]
B --> C[Grava o que foi digitado<br/>sem vínculo com o eleitor]
C --> D[Cópia interna]
C --> E[Cópia na mídia externa]
D --> F[Ao fim: soma por candidato<br/>branco e nulo]
E --> F
F --> G[Boletim de Urna]
6. Do BU à totalização nacional
O Boletim de Urna é o extrato da seção: zona, seção, identificação da urna, aptos, comparecimento, faltas, início e fim, votos por candidato e legenda, brancos, nulos, totais por cargo e código de validação. Desde a UE2015 o BU traz QR Code, lido pelo aplicativo Boletim na Mão. >https://play.google.com/store/apps/details?id=br.jus.tse.BoletimNaMao
A página oficial de votação segura do TSE indica cinco vias obrigatórias e até 15 adicionais. Uma via é afixada na porta da seção; outras seguem ao cartório com a ata; fiscais recebem via. Não emitir o BU após o encerramento, salvo defeito da urna, é crime pelo Código Eleitoral.
A mídia de resultado guarda o BU digital, o RDV e a assinatura. Mesmo num PC comum os arquivos não devem ser alteráveis de modo aceito pela totalização: a chave de decifração é do software oficial. A urna nunca entra em rede. A transmissão ocorre depois, no polo, por rede privativa. O servidor confere assinatura digital, consistência (votos × comparecimento) e descarta BU inválido. A totalização soma BUs sem reeditar votos.
Qualquer pessoa pode comparar o BU da porta da seção com o resultado publicado. Essa conferência pública é o principal mecanismo ex post de auditoria de seção.
7. Auditorias oficiais
O TSE lista, na versão internacional do site, estes instrumentos:
Fontes
- Detalhes técnicos das urnas eletrônicas 2020 e 2022 — Justiça Eleitoral
- Votação segura — Tribunal Superior Eleitoral
- Como nasce uma urna: confira o passo a passo no dia da eleição — Tribunal Superior Eleitoral
- Como nasce uma urna: segurança do software diferencia equipamento de computador comum — Tribunal Superior Eleitoral
- Documentação técnica do software da urna eletrônica - Eleições 2022 — Tribunal Superior Eleitoral
- Auditability — Tribunal Superior Eleitoral (English)
- Urna eletrônica: veja como funciona e como o voto é protegido — Senado Notícias
- Lei nº 9.504, de 30 de setembro de 1997 — Estabelece normas para as eleições
- Lei nº 4.737, de 15 de julho de 1965 — Institui o Código Eleitoral
- Resolução nº 23.736, de 27 de fevereiro de 2024 — Tribunal Superior Eleitoral
- Anexo I-VIII – Especificação Técnica – Hardware – UE2028 v. 5.0 — Tribunal Superior Eleitoral
- Conheça a evolução da urna eletrônica: de 1996 a 2024 — Tribunal Superior Eleitoral
Há também teste de integridade com biometria em edições recentes. O Senado, reproduzindo o TSE, fala em mais de 40 procedimentos de auditoria no ciclo eleitoral. O TSE afirma não haver registro comprovado de fraude na coleta, apuração e totalização desde 1996. Isso é afirmação institucional; a auditoria independente depende das janelas acima — e o Teste de Integridade amostra urnas, não o universo.
Limite do modelo: quem vota não leva um papel com o próprio voto para confrontar depois. A verificação é coletiva (BU, RDV, logs, hashes), não individual.
8. Síntese operacional
| Etapa | O que ocorre | O que se pode conferir |
|---|---|---|
| Antes | Código, TPS, hashes, lacração, carga | Entidades fiscalizadoras |
| 7h | Software check + zerésima | Mesários e fiscais |
| 8h–17h | Habilitação + voto no RDV embaralhado | Cabine isolada; urna offline |
| 17h | BU impresso + mídia assinada | Porta da seção, fiscais, app |
| Depois | Transmissão e soma dos BUs | Portal, QR Code, cópias de RDV |
A urna é um registrador e apurador de seção, isolado, com cadeia de confiança em hardware e software assinado. O resultado nacional é a soma autenticada desses boletins, não um “computador central” que recebe votos um a um.
Fontes
- Justiça Eleitoral, Detalhes técnicos das urnas 2020 e 2022 — justicaeleitoral.jus.br/urna-eletronica/detalhes-tecnicos-da-urna.html
- TSE, Votação segura — tse.jus.br/.../votacao-segura
- TSE, Como nasce uma urna: passo a passo no dia da eleição (15/05/2024) — tse.jus.br
- TSE, Segurança do software (Uenux, cadeia de confiança) — tse.jus.br
- TSE, Conheça a evolução da urna (1996–2024) — tse.jus.br
- TSE, Documentação técnica do software da urna — Eleições 2022 — tse.jus.br
- TSE International, Auditability — international.tse.jus.br
- Agência Senado, Urna eletrônica: veja como funciona... (16/09/2026) — senado.leg.br
- Lei nº 9.504/1997, art. 91-A — planalto.gov.br
- Lei nº 4.737/1965 (Código Eleitoral), arts. 23 e 146 — planalto.gov.br
- Resolução TSE nº 23.736/2024 — tse.jus.br
- TSE, Especificações técnicas de hardware — UE2028 — tse.jus.br
Números de 2026 sobre quantidade de urnas circulam em reportagens técnicas com dados do TSE. Specs de processador e RAM das UE2020/UE2022 estão na página de detalhes técnicos da Justiça Eleitoral. Em caso de divergência entre reportagem e página do TSE, prevalece o TSE.
Eleições 2026: entenda a engenharia por trás da urna eletrônica
Olhar Digital
Uma urna pode ser hackeada ?
Provavelmente não de um jeito técnico.
COMO AS F4CÇÕES ESTÃO SE INFILTRANDO E MODIFICANDO AS ELEIÇÕES
Iconografia da História
Achados interessantes:
https://x.com/brunopinheiroms/status/2106916638175989854

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